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Logística e infraestrutura para parques offshore movimenta mercado

Brasil não precisa de novos portos, conclui estudo, mas tem que acelerar projetos para não perder investimentos para outros países e ficar sem atendimento na cadeia global de fornecedores.

FONTE: Brasil Energia

Já tida como praticamente certa para começar no Brasil até o fim da década, dado o número crescente de projetos cadastrados no Ibama, o bom andamento do decreto regulatório e a expectativa do setor de que o primeiro leilão de cessão de área seja anunciado ainda neste ano, a fonte eólica offshore já ocupa mentes e corações de investidores da cadeia logística dos futuros parques em alto-mar.

E não é para menos. A logística e a infraestrutura portuária para os imensos componentes são itens fundamentais do capex bilionário dos parques, respondendo, em média, por 35% do custo total do investimento, pareando em importância com os desembolsos dos aerogeradores.

Daí também a constatação de que, para o Brasil ser competitivo nesse mercado em expansão globalmente, com várias nações na disputa pelos investimentos, boa parte das atenções dos desenvolvedores de projetos precisará estar voltada para preparar uma oferta logística eficiente e de baixo custo.

Porto do Açu, no Rio, é o mais adiantado nas negociações para criação
de bases operacionais

Nesse ponto, felizmente, segundo novo estudo da cadeia de valor para eólica offshore da Coppe-UFRJ, da Essenz Soluções e da Abeeólica, o País parece estar começando bem nessa disputa, pelo menos com base em sua oferta atual de portos para atender os futuros projetos.

Uma das conclusões do estudo é a de que o Brasil não precisa investir em portos novos, por ter muitos já em atividade e que poderiam atuar na logística de implantação e operação dos parques de forma complementar –  com alguns deles mais vocacionados para a nova fonte – em todas as três regiões com maior potencial de exploração eólica offshore (Nordeste, Sudeste e Sul).

Trata-se de conclusão muito positiva. Um porto novo, segundo estimativas do mercado, envolveria aportes a partir de US$ 250 milhões e teria a desvantagem de demorar ainda mais a introdução da fonte no País. A revelação do estudo se contrapõe, aliás, ao anúncio do governo do Rio Grande do Norte de licitar um complexo portuário neste ano para atender a projetos futuros de eólicas offshore e hidrogênio verde.

Porto-indústria

A vantagem inicial de ter portos disponíveis é ainda mais importante porque essa infraestrutura para a fonte eólica offshore serve não só como base logística para a instalação, operação e manutenção dos parques, mas como base industrial do novo mercado.

A dificuldade do transporte dos imensos componentes por rodovias induz os fabricantes de componentes e das turbinas a se instalarem dentro das áreas portuárias, de preferência nas partes “molhadas”, tanto para pré-montagem das turbinas como, quando possível, para produção de componentes, caso de pás e naceles, por exemplo.

Segundo a presidente da Abeeólica, Elbia Gannoum, a demanda será pelo conceito dos portos-indústria, o que tem muita probabilidade de ocorrer em alguns complexos mais estratégicos. “A tendência é que as fábricas sejam lá”, diz.

Ao analisar os principais portos do País, o estudo encomendado pela associação conclui que deve haver complementaridade entre os principais portos das regiões nas entregas e serviços, notadamente no Nordeste, sendo que três deles se destacam por conta da localização e vantagens competitivas para atender parte dos projetos existentes no Ibama para licenciamento (volume que será bem menor do que os irrealistas 180 GW cadastrados).

Porto de Pecém é o mais bem avaliado do Nordeste

No Nordeste, o Porto do Pecém, em São Gonçalo do Amarante (CE), foi o mais bem avaliado; no Sudeste, o Porto do Açu, em São João da Barra (RJ); e na região Sul, o Porto do Rio Grande, no município homônimo no Rio Grande do Sul.

Para a avaliação, os pesquisadores compararam as características dos portos brasileiros com requisitos de referência, no caso embasados no Porto de Esbjerg, na Dinamarca. Levaram em conta as distâncias máximas recomendadas e aceitáveis até as áreas de instalação (185,2 km até 370,4 km, respectivamente); de calado aéreo para permitir passagem de guindastes (no recomendado sem limite e no aceitável de no mínimo de 100 metros); de dimensões e capacidade de cargas para carregamento e pré-montagem dos componentes; e de armazenamento de cargas. E isso tudo considerando as dimensões e os pesos elevados dos principais equipamentos eólicos.

Com base nas premissas, o Porto do Pecém teve a melhor avaliação no Nordeste, com possibilidade de atender 14 dos 31 projetos existentes no Ibama (reduzidos para 11, ao se descontar três superposições de projetos na região). No Sul, com baixa oferta de portos, o vencedor na análise foi o Porto do Rio Grande, que atenderia a 12 dos 22 projetos (já descontadas as sobreposições).

Já no Sudeste, o Porto do Açu é o de melhor qualificação, atendendo dentro dos requisitos do estudo a todos os 13 projetos da região (8, se descontadas as 5 sobreposições). Há também o Porto Central, no Espírito Santo, que também tem localização para todos os projetos, mas ainda está em construção.

Açu adiantado

O posicionamento estratégico do Porto do Açu, da Prumo Logística, aliado a outras vantagens competitivas já devidamente estudadas por seus executivos, faz o local ser o mais adiantado nas negociações para criação de bases operacionais e mesmo fabris que atenderão os projetos eólicos no mar do Sudeste.

Mauro Andrade, diretor de novos
negócios da Prumo Logística

Segundo o diretor de novos negócios da Prumo Logística, Mauro Andrade, já foram assinados memorandos de entendimento para estudo de implantação de bases logísticas com as empreendedoras EDF, Neoenergia, Total e Equinor. E ainda mais dois grupos estão prestes a assinar acordos semelhantes.

De acordo com Andrade, em comum todos esses grupos entendem a importância de, logo no início do processo, definir as bases logísticas e de instalação dentro do porto como forma de entender os custos de desenvolvimento do projeto. “Isso é tão importante como a turbina, na faixa dos 35% do capex”, diz.

Com cerca de 1,5 milhão de m2 disponíveis no porto para esses operadores, dentro da área molhada, com acesso direto ao mar, 80% desse total conta com manifestações de interesse de empresas. Embora ainda não tenham assinado um contrato, segundo Andrade a expectativa é que até o final do ano isso ocorra, tanto para celebrar a implantação de bases de desenvolvedores como para fornecedores Tier 1 da cadeia (montadoras de turbinas e de principais componentes).

Hub de gás no Açu: porto está localizado no centro de carga
mais importante do país

O incentivo do Porto do Açu para buscar se tornar hub de desenvolvimento em eólica offshore no País se funda em vantagens competitivas da região. De início, como ressaltado pelo estudo da Coppe e da Essenz, sua localização é muito próxima dos principais projetos de parques, entre 20 e 30 km das áreas, segundo o diretor da Prumo.

Além disso, pesa a favor a característica dos campos de eólica offshore na região, em lâminas de água muito rasas, entre 20 e 60 metros no máximo, e com solo apropriado que facilita a fixação dos aerogeradores com estacas monopile, tecnologia mais barata do que as jaquetas ou as eólicas flutuantes.

Para completar, é também vantagem competitiva o fato de o futuro hub estar no centro de carga mais importante do Brasil, ao contrário do Nordeste, cujo custo e déficit de linhas de transmissão podem ser barreira para investimentos. Por essas questões, Andrade acredita que o Sudeste vai viabilizar os primeiros investimentos de eólicas offshore no Brasil. Para ele, entre 2030 e 2033 a expectativa é a região ter os primeiros 3 GW a 5 GW do País de potência instalada no alto-mar. “Mas para isso acontecer é preciso que o governo anuncie o primeiro leilão de cessão de área neste ano”, alerta.

Para aproveitar as vantagens competitivas, a expectativa da Prumo se baseia em três pilares. Para começar, o fato de ser um porto pronto, com infraestrutura e área para arrendamento, se torna atrativo natural para os investidores, caso dos que já assinaram MOUs para estudos. O segundo pilar são as várias sinergias operacionais com parte da cadeia de valor que hoje dá apoio ao setor de óleo e gás offshore no porto. Muitas das embarcações e dos serviços que servem essas demandas também serão deslocadas para as eólicas.

Já o terceiro pilar se fundamenta no esforço já iniciado de criar uma cadeia de fornecedores no porto. Isso vai permitir o andamento de vários projetos ao mesmo tempo, com os mesmos fornecedores. A expectativa com isso, aliás, de acordo com Andrade, é a do Porto do Açu também conseguir atender com essa cadeia os projetos do Sul do País, com navegação de cabotagem para transportar componentes produzidos em São João da Barra.

Construção e embarcações 

Além da infraestrutura de portos, que o Brasil demonstra ter uma boa base inicial para os projetos, a logística de implantação dos novos parques também não deve ser um grande complicador. Isso porque será possível aproveitar a sinergia com os vários operadores atuantes no País para o mercado de óleo e gás, cujas embarcações, serviços de engenharia e de instalação em alto-mar também servirão à eólica offshore.

Melhor ainda do que a sinergia é parte dessas empresas já atuar globalmente em eólica offshore, com know-how consolidado na “nova” área renovável, sendo que algumas delas começam a se estruturar para ofertar seus serviços no Brasil. Um bom exemplo é a norueguesa Subsea7, há quase 40 anos no Brasil ofertando serviços de engenharia e construção para óleo e gás offshore, e que há 10 anos tem atuado em vários projetos eólicos no mundo, somando por volta de 10 GW instalados.

Daniel Hiller, vice-presidente regional
da Subsea7

A Subsea7 atua nesse mercado, segundo seu vice-presidente regional, Daniel Hiller, por meio de empresa do grupo, a Seaway7, que hoje representa um quarto da receita total da controladora. No Brasil, o momento é de desenvolvimento de negócios, com muitas conversas com vários players do setor, desde clientes, operadores em migração para as renováveis, empreendedores de energia elétrica e fornecedores. Segundo Hiller, até o fim do ano muito possivelmente será firmado um acordo estratégico. “Queremos nos posicionar de forma antecipada”, diz.

A atuação diversificada da norueguesa envolve uso de frota própria de embarcações para todos os tipos de necessidades na implantação do parque, desde operações de transporte até a

Roberha Marques,
gerente-sênior de negócios
para transição energética da
Subsea7 no Brasil

instalação das turbinas, de fundações, subestações submersas e os cabos elétricos. Nesse período de dez anos, revela Hiller, já foram instaladas mais de 30 subestações de grande porte, feitas mais de mil fundações e instalados mais de 1000 km de cabos para conectar os aproximados 10 GW em turbinas.

Para suportar a operação, a Seaway7 conta com frota de 12 embarcações dedicadas às necessidades de implantação dos parques eólicos, sendo duas delas, muito modernas, em estágio final de montagem.  São navios para instalação de turbina e fundação, lançamento de cabo, de transporte de fundação. Aliado a esse aparato, a empresa une seu know-how de gestão de projetos de grande risco, de engenharia submarino e logística internacional.

Entre os dois barcos com planejamento de ficarem prontos neste ano, está o chamado jackup (jaqueta autoelevável), utilizado para instalação dos aerogeradores e com poucas unidades no mundo, altamente disputáveis nos projetos. Não à toa, segundo a gerente-sênior de desenvolvimento de negócios para transição energética da Subsea7 no Brasil, Robertha Marques, essa embarcação, assim como a outra voltada para instalação de fundações em construção, sairá do estaleiro em 2023 já contratada para vários projetos no mundo.

Seaway7 tem 12 embarcações dedicadas e já negocia com
players no Brasil

A vantagem desses barcos jackups é sua função autoelevável, que permite que ele se eleve acima das ondas durante o período de instalação das turbinas. “Ele se isola das condições de tempo no alto-mar, permitindo o trabalho em condições temporais adversas”, completa Hiller. Bom acrescentar que a carteira atual de pedidos de projetos da Seaway7 está na casa do US$ 1 bilhão.

Outra preocupação nas embarcações apropriadas para o mercado eólico offshore, caso dos modelos para fundações e instalação de pás e das turbinas, é poder operar de forma seriada, como se fosse uma planta industrial offshore. “O mercado eólico offshore é sempre acima de 100, ou seja, a mais de 100 km e com mais de 100 unidades para transportar e instalar”, finaliza Hiller.

Essa alta especialização para as montagens, com navios com muita tecnologia embarcada, aliás, não é dominada por número suficiente de empresas no mundo para manter a balança de oferta e demanda equilibrada.

Com 50 GW de projetos hoje no mundo, e mais vários outros no pipeline para médio e longo prazo, a estimativa média é a de que não há aerogeradores e nem embarcações disponíveis até 2027. O aviso de vários agentes do setor, portanto, é claro: já está na hora de o Brasil começar a estruturar seus projetos, sob risco de perder investimentos para outros países e de atrasado, ficar sem atendimento na cadeia global de fornecedores.